Por que eu não quero que meu filho seja alfabetizado?
Ano 5

Por que eu não quero que meu filho seja alfabetizado?

Eu acredito que aprender a ler acontece de forma natural assim como aprender a andar. Da mesma forma que não adianta a gente ensinar um bebê a andar (nem colocando no andador) que ele não vai aprender a andar antes do seu próprio tempo, não adianta ensinar uma criança a ler antes que ela esteja pronta.

Uma pesquisa recente mostrou que aprender a ler modifica o nosso cérebro. Isso porque não fomos “feitos” pra ler. A leitura mexe com diferentes partes do cérebro, que atuam em equipe pra transformar uma forma desenhada em um som e a seguir em uma palavra com sentido. E isso é um atributo recente na evolução da nossa espécie.

A maioria das crianças não consegue fazer isso antes dos seis e até mesmo dos oito anos. Qualquer coisa que ela fizer antes disso vai ser em boa parte decorando. Ela reconhece o desenho que representa o seu nome, consegue identificar os nomes de algumas letras e números, mas nem sempre compreende o significado disso tudo. Aos 4 anos ela não está lendo, mas sim reconhecendo desenhos assim como ela reconhece uma casa, uma flor, o sol.

Uma amiguinha do Ben é um bom exemplo disso. Na escola anterior a turma de 3/4 anos já tinha atividades de leitura. Ela terminou o ano passado sabendo escrever o próprio nome. Mas esse ano mudou para uma escola municipal que não tem esse estímulo, e nunca mais escreveu o nome dela!

É claro que existem excessões. Eu mesma aprendi a ler com 4 anos, quando meu irmão 2 anos mais velho estava passando pelo processo de alfabetização. Minha irmã gêmea, no entanto, mesmo recebendo os mesmos estímulos só foi aprender na primeira série (hoje segundo ano).

Até essa questão da nova nomenclatura do ensino fundamental me incomoda. Pois a pré-escola virou primeiro ano e as pessoas​ já estão esperando que as crianças saibam ler nessa idade. Não demora muito a quererem que já entrem no primeiro ano lendo! (Inclusive já tem estudos nos EUA mostrando isso)

Eu acho uma baita sacanagem com as crianças. Veja bem: uma vez aprendido a ler, não tem como desaprender. Ela vai entrar no mundo letrado pra sempre. Eu particularmente gostaria que o Ben vivesse no mundo da imaginação dele pelo máximo de tempo possível.

Além disso, ns primeira infância as crianças têm que estar preocupadas com o brincar, com o desenvolvimento de habilidades sociais e emocionais que vão levar pra vida toda, não perder tempo decorando letrinhas… A Educação Infantil pode ajudar na caminhada pra alfabetização, não se meter a fazê-la.

A importância dos estímulos 

Agora, mesmo que eu não queira que ele aprenda a ler logo, não deixo de estimular seu interesse pelo mundo letrado. Assim como o bebê que aprende a andar, a gente precisa estimular, deixa-lo no chão, oferecer brinquedos, brincar com ele.

Então aqui em casa sempre tivemos muita leitura (especialmente na hora de dormir), conversamos muito sobre o assunto. No início eu queria blindá-lo de todo e qualquer estímulo nesse sentido. Chegava a mudar de assunto quando ele falava em letra ou número.

A primeira vez que ele chegou falando de letras eu entrei em choque. Ele tinha 2 anos e meio. Chamei a professora pra conversar, consultei amigas. Uma dessas amigas me disse duas coisas que me acalmaram o coração.

Primeiro: responda somente o que ele perguntou (isso vale pra vida né). É diferente você dizer “essa é a letra A” de dizer “esse é o A, vamos encontrar outras palavras com essa letra?”.

Segundo: crescendo em um ambiente estimulante, você esperava o quê? Ele vai se interessar naturalmente pelo tema.

Essas duas mensagens me ajudaram a lidar com essa questão de lá pra cá. Sempre respondendo aos movimentos dele, fomos ensinando uma coisa aqui, outra ali sem forçar nada. E de lá pra cá, ele aprendeu algumas coisas, mas ainda está muito longe de saber ler. Ele sabe três letras (B de Ben, A de Ana Rosa,O da vovó Osmarina), sabe desenhar o próprio nome, reconhece alguns números. E só.

Ele tem dado alguns sinais de que está caminhando pra ser alfabetizado no próprio tempo. Percebe a relação entre o tamanho das palavras e a quantidade de sílabas (fonemas), finge que tá lendo com o dedinho no texto, identifica placas de trânsito e a sinalização de “proibido”. Reconhece o “proibido estacionar” e fica perguntando “o que que é proebido ali?”, quando não tem um E na placa.

Volta-e-meia ele aparece destrinchando uma palavra:

– Aderência. Olha, A-de. A de Ana Rosa!

– De de Denise e Diego, eu completei.

– A-de-ren-sa. SA, de Samuca!!

Aos 4 anos e meio, tudo o que eu quero é que ele continue imaginando suas próprias histórias e descobrindo por conta própria como se escreve cada coisa. Respondendo à pergunta-título: eu não quero que ele seja alfabetizado porque tenho certeza de que ele vai aprender a ler no seu próprio tempo.

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