Reflexões

Precisamos falar sobre o puerpério.

PuerperioEra uma vez uma mulher que estava dirigindo na BR e precisou parar para trocar o pneu. Ela parou no acostamento e saiu do carro disposta a trocar o pneu (talvez com alguma ajuda), e certa de que sua viagem continuaria a mesma, com a diferença de que dali pra frente ela teria que viajar com o estepe.

Ela conseguiu trocar o pneu do carro (sozinha ou com ajuda, não importa) e assim que a ultima porca do pneu foi apertada, ela se dirigiu à porta do motorista para voltar ao seu posto e seguir viagem. Só que ela não sabia que naquela região o acostamento também era utilizado como pista, e que era muito utilizada por caminhões. Então, antes que ela conseguisse entrar no carro de volta, apareceu um caminhão desgovernado que a atropelou, levando ali tudo o que ela conhecia e chamava de vida.

Num primeiro momento, a motorista pensou que sua vida tinha acabado por ali. Mas depois do resgate, foi encaminhada para a UTI, onde passou muitos meses em coma, depois foi para o quarto. Gradualmente foi se recuperando, e depois de cerca de 12 meses de tratamento, finalmente se sentiu apta a voltar a uma vida dita normal.

Mas a essa altura do campeonato, ela já havia percebido que sua vida, tal qual conhecia antes do incidente, não existia mais. E que ela carregaria para sempre as seqüelas daquele fatídico dia.

Muito prazer, eu sou a motorista. E o caminhão que me atropelou se chama PUERPÉRIO.

Wikipedia
Puerpério é o nome dado à fase pós-parto, em que a mulher experimenta modificações físicas e psíquicas, tendendo a voltar ao estado que a caracterizava antes da gravidez.

O puerpério inicia-se no momento em que cessa a interação hormonal entre o ovo e o organismo materno. Geralmente isto ocorre quando termina o descolamento da placenta, logo depois do nascimento do bebê, embora possa também ocorrer com a placenta ainda inserida, se houver morte do ovo e cessar a síntese de hormônios.

O momento do término do puerpério é impreciso, aceitando-se, em geral, que ele termina quando retorna a ovulação e a função reprodutiva da mulher.

 

Laura Gutman
Vamos considerar o puerpério como o período que transita entre o nascimento do bebe e os dois primeiros anos, ainda que emocionalmente haja um progresso evidente entre o caos dos primeiros dias -em meio a um pranto desesperado- e a capacidade de sair ao mundo com um bebe nas costas.(…)

Recordar o puerpério equivale frequentemente a reorganizar as imagens de um período confuso e sofrido, que engloba as fantasias, o parto tal como foi e não como havia querido que fosse, dores e solidões, angustias e desesperanças, o fim da inocência e o inicio de algo que dói trazer outra vez a nossa consciência.Para começar a armar o quebra-cabeça do puerpério é indispensável ter em conta que o ponto de partida é o parto, quer dizer, a primeira grande desestruturação emocional. Como descrevi no livro “maternidade e o encontro com a própria sombra “para que se produza o parto necessitamos que o corpo físico da mãe se abra para deixar passar o corpo do bebe, permitindo uma certa “ruptura” corporal também se realiza em um plano mais sutil, que corresponde a nossa estrutura emocional. Há um algo “que se quebra, ou que se “desestrutura” para conseguir a passagem de “ser um a ser dois”.

PUERPÉRIO. A gente pode passar a vida sonhando ser mãe, meses se preparando parao parto, dias e semanas lendo sobre amamentação. Mas nada nem ninguém consegue nos preparar adequadamente para ele, o puerpério.

Hoje em dia quando vejo mulheres maravilhosamente maquiadas posando com seus filhos recém-nascidos, eu nutro um sentimento ambivalente, de pena e de inveja.

De pena por essa mulher, que acredita que tem que estar linda/em forma/disposta/normal/pronta para o marido logo depois que o seu filho nasceu. Seja por uma cobrança da família, do emprego, da condição social, ou dela própria.

E de inveja por ela realmente conseguir atender a tais expectativas.

Fico pensando em quanta coisa importante acaba sendo deixada de lado quando uma mulher não se permite (é permitida) viver plenamente o puerpério. Quantas necessidades (dela, do bebê, da família) acabam sendo negligenciadas a cada vez que outra necessidade é colocada à frente desse momento ímpar.

No puerpério, pelo menos pra mim, não existia nenhuma prioridade maior do que a vida do meu filho. Amamentar estava acima de qualquer necessidade. Protegê-lo, cuidar dele, satisfazer suas necessidades, eram o que me movia, dia após dia. Se tínhamos um compromisso para ir, por exemplo, com uma semana de antecedência eu já sabia a roupa que ele iria vestir e o que teria na mala. Mas só na hora de sair de casa eu me dava conta de que eu mesma teria que vestir/comer/levar algo. Eu vivia para ele. E foi assim intensivamente nos seis primeiros meses e gradualmente reduzindo nos meses seguintes.

Foi um período em que eu estive especialmente vulnerável. Nos primeiros dias, apesar de todo o apoio e parceria do meu marido, e apesar das visitas diárias de amigos e familiares, me sentia extremamente sozinha. A solidão era mais porque não havia com quem dividir tudo aquilo que eu estava vivendo. Era eu quem tinha que viver cada uma daquelas sensações, ninguém viveria por mim. Acho que isso foi no período do “coma”.

Depois de sair da “UTI”, fui pro “quarto” e lá consegui reproduzir minha vida quase como ela era antes de ser atropelada. A casa relativamente em ordem, o filho alimentado, vestido, protegido. Mas como qualquer pessoa em “recuperação”, precisei de muito apoio do marido (imprescindível), da família, dos amigos, para que tudo isso realmente ficasse em ordem. Nesse período, conheci outras mulheres “em recuperação”. Felizmente, nos unimos num grupo de “puérperas anônimas”, e juntas dividimos todas as alegrias e angústias da maternidade. Graças a elas, percebi que não estava sozinha, não era a primeira e não seria a última a ser atropelada pelo tal caminhão desgovernado.

E tenho pra mim que vivi o puerpério por exatos 15 meses. E não foi a minha volta ao trabalho que determinou o fim dele. Mas exatamente o contrário: foi somente com o fim do puerpério que me vi pronta para voltar ao mercado de trabalho. Não vejo isso como positivo ou negativo. Penso que eu tenha apenas respondido a um chamado da natureza, por assim dizer. E sinto muito por quem não se deixa viver o puerpério por completo. Pois ao negar, boicotar, esse chamado (que pode durar semanas, meses o ano, como no meu caso), alguma parte da maternidade acaba sendo prejudicada.

Mas eu não vivi tudo isso tendo plena consciência de que estava passando pelo puerpério. Isso tudo são conclusões que eu tiro agora, olhando para trás. Naquele tempo eu achava sempre que devia estar fazendo melhor (cuidando melhor da casa, me arrumando melhor, namorando mais…), me sentia em dívida, mas não conseguia cumprir com minhas expectativas. Agora entendo melhor o por quê.

Então, se eu pudesse dar um conselho para quem está prestes a ser atropelada por esse caminhão desgovernado, eu diria: Coloque-se em primeiro lugar nas tuas prioridades (o bebê faz parte de ti). Permita-se viver plenamente o puerpério, e não tente provar para ‘os outros’ que ‘tá tudo bem, foi só um arranhão’. Entregue-se ao chamado da natureza.

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Comentários

12 thoughts on “Precisamos falar sobre o puerpério.”

  1. Tô aqui, dentro do carro, esperando o pneu furar, e sabendo que vou precisar descer para trocar, por mais que já saiba do acontecimento anunciado. Fácil. rsrsrsrs
    Mas tô curiosa tb. Muito curiosa pra saber como vai ser a nova eu q vai deixar o hospital…

  2. De, apenas uma coisa: muito obrigada por me dizer isso tudo agora.
    Tenho uma vaga sensação de que lá na hora, no meio do furacão, vou me esquecer de que sim, posso me entregar a tudo isso e ir fundo (coma, né?! rs), mas tá sendo bem importante ler sobre o puerpério agora que ele está batendo na minha porta.

    Beijo grande!

    1. Foi exatamente pensando em ti e na Nana que eu escrevi esse post. Fico feliz em ter conseguido colocar a tempo no teu caminho 😉
      Agora que vi que Agnes nasceu, estou aqui explodindo de felicidade!!

  3. Nunca li nada tão real…puxa! Mas comigo se deu diferente: até os 06 meses era um êxtase… depois a ficha caiu e os conflitos vieram… temos que viver um dia de cada vez… Lindo blog… vou devorá-lo… Gratidão!

  4. Adorei seu blog! E realmente essa fase do puerpério precisa ser discutida mais vezes, é uma fase que não é nada fácil. Precisamos aprender mais para saber lidar com tantas emoções desse momento que ao mesmo tempo é tão lindo, mas tão complicado. Adorei seu texto e já ganhou uma seguidora.

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