Reflexões

Relato de parto da Ana, do Rogério e do Marcelo

No ano passado eu contei aqui sobre a terceira vez que eu pari. Foi quando minha irmã gêmea, Ana, teve o meu sobrinho, Marcelo. Depois que passou a fase inicial com o RN, eu a convidei a contar o seu lado da história, afinal, foi ela quem viveu aquele momento. Queria mostrar para outras mulheres que com um quadro de trombofilia (excesso de coagulação, no caso dela) é perfeitamente possível ter um bebê com parto normal.

A Ana tomou todos os dias, desde quando descobriu a gravidez, até as 40 semanas completas, 2 injeções de heparina, uma medicação que ajuda a afinar o sangue. E acompanhada por um GO humanizado, e por uma hematologista, ela trilhou o seu próprio caminho rumo ao parto normal.

Então, finalmente ela conseguiu escrever o relato de parto dela. E sabe o que eu mais gostei, além da emoção de reviver o nascimento do meu sobrinho? Foi a forma tão natural com que ela lidou com tudo. Durante o relato, não a vemos questionando se deveria ou não buscar um parto normal, nem vemos ali algum tipo de luta em busca do tão sonhado parto. Não. Ela encarou naturalmente todas as fases, sem muitos questionamentos. Parir era natural, assim como foi totalmente natural pra ela receber a anestesia na reta final. O objetivo era um só: ter o Marcelo em seus braços.

RELATO DE PARTO DA ANA, DO ROGÉRIO E DO MARCELO
Por Ana Luísa Ferreira

Nem lembro o dia em que pensei: Quero ser mãe. Acho que é um sentimento que já nasceu comigo. O mundo infantil sempre me cativou muito, pela pureza de espírito e pela beleza das pequenas descobertas. Nada mais rejuvenecedor do que uma gargalhada de uma criança dada depois de uma cosquinha na barriga! Me sinto criança até hoje. Quando me perguntam minha idade, fico meio sem graça de dizer 32, porque sinceramente acho que não combina comigo. Adoro um jogo daqueles que reúne a família inteira envolta da mesa, da fogueira, na grama, na praia.

Tenho 5 irmãos, em casa nunca faltou gente pra brincar, então cresci brincando e acho que brinco até hoje pela forma de levar a vida. Já não sou a mesma Ana macaca jabu que adorava subir em árvores, mas se aparece uma árvore no meio do caminho, daquelas bem grandes, fico louca pra subir, me deitar e apreciar a paisagem!

Quando descobri que estava gravida, depois de um aborto espontâneo, fiquei tensa, parecia que não ia ser tão legal a brincadeira como eu sempre imaginei. Tinha feito tudo direitinho na primeira vez só que não era a hora. Parte de mim estava eufórica e a outra me dizia muita calma nessa hora, você ainda não sabe se a brincadeira começou pra valer… E foi assim até que, no ultrassom de 5 semanas, escutei o coraçãozinho do meu pequeno, vinha dentro de mim, não era eu, mas estava dentro de mim. Foi então que a ficha caiu: Vou ser mãe!

O Marcelo foi muito amado desde o primeiro momento em que sozinha, no banheiro do trabalho, fiz um teste de farmácia e apareceram as duas tirinhas azuis. Naquele momento, num espaço de 1 metro quadrado eu cresci, fiquei gigante, parecia que minhas pernas tinham esticado e eu estava lá no céu, tipo a árvore do João e o pé de feijão. Nada mais era o mesmo.

Curti muito os próximos oito meses que se seguiram. Cada movimento novo que o Marcelo fazia eu comemorava, ligava pro Rogério e sentíamos juntos. Nisso um mundo novo se abriu: umbigo cai quando? Ele toma banho assim que nasce? Quantas fraldas usa por dia? Pode tomar banho com água do chuveiro? E se tiver febre? E se chorar? Quem convidar pra festa de um ano? Socorro, minha cabeça estava a mil por hora.

Nunca fui muito de planejar as coisas, então fui deixando as coisas acontecerem da forma que eram pra acontecer. E assim foi até o dia em que ele nasceu.

Por conta de um problema de excesso de coagulação, tive que tomar duas injeções diárias de heparina durante os nove meses, uma de manhã e outra à noite. Pensei que ia ser chato esse processo, mas não, curtia tanto o momento por pensar que era pra garantir a saúde do meu pequeno que no final era até legal, parecia um joguinho, todo mês tinha que pegar a receita com a médica hematologista, ir na farmácia de medicamentos especiais da Universidade pegar as ampolas de graça (porque era um tratamento diário bem caro e por sorte o governo de Florianópolis disponibiliza na rede pública), ir no posto de saúde pegar as seringas e aplicar a cada 12 horas. A cada aplicação eu dizia pro Rogério: só faltam 112, só faltam 111… Até o dia em que eu virei pra ele e disse: essa é a ultima heparina que vou aplicar!

Chegamos às 40 semanas!!!

Por conta do problema de coagulação, se o Marcelo não quisesse nascer até as 40 semanas teríamos que induzir o parto, pra saúde dele e minha. Então na consulta de 40 semanas exatas o dr. Fernando combinou com a gente às 7 da manhã do dia seguinte na maternidade pra iniciar a indução.
Nem lembro como foi aquela noite, acho que estávamos tão felizes que não dava nem tempo pra pensar, lembro apenas da contagem regressiva da última heparina, tiramos até foto!

A indução iniciou com dois comprimidos, de manhã não senti nada… Ficamos eu e o Rogério batendo papo e rindo de nervosos um pro outro. No início da tarde, as 14h30 o dr veio dar mais dois comprimidos. Acho que 15 minutos depois a bolsa estourou, senti um toc dentro de mim, como se fosse um pedaço de madeira caindo no chão. As contrações iniciaram a partir dai… Espaçadas, vinham e iam embora, uma ducha nas costas e na barriga é ótima nessa hora, massageava, relaxava e amenizava as contrações. Estávamos numa suite na maternidade, nós três, eu e Rogério aqui de fora e Marcelo lá dentro, conversando e curtindo o momento. Só iríamos para a sala de parto perto da hora de nascer. Muito interessante, pois nem o dr. ficou lá, era nosso momento. Depois de  4 horas com as contrações indo e vindo e cada vez mais constantes, chamamos o dr. pois já era a hora. Fomos para a sala de parto, sentei na banheira, o Rogério ficou ali ao meu lado pra me ajudar no que precisasse. Um minuto depois já não aguentava ficar sentada, era em pé e no chuveiro que me sentia melhor, voei para o chuveiro. Uma hora depois, no momento em que meu corpo não aguentava mais ficar em pé, o dr. ofereceu uma anestesia, (Ufa, santo anestesista), e sugeriu que eu sentasse num banquinho, o Rogério sentado atrás de mim me abraçando com as pernas, me amparando, participando daquele momento. A cada contração apertava a perna dele e me sentia segura. O dr. na nossa frente, apenas assistindo o que a natureza melhor sabe fazer. E ele veio vindo, uma sensação de formigamento, brilho e borboletas voando era o que passava na minha cabeça, fechei os olhos e me vi, ali, parindo meu filho, abri os olhos, apertei o Rogério e fiz a maior força do mundo. E para o mundo nasceu o Marcelo. Veio direto para nossos braços, de olhinhos abertos, olhou pra mim e logo olhou pra cima procurando os olhos do pai!
Bem-vindo meu filho, estamos aqui pra te acompanhar nessa brincadeira linda, desafiadora e maravilhosa que é a VIDA!

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Comentários

5 thoughts on “Relato de parto da Ana, do Rogério e do Marcelo”

  1. Pelo jeito escrever bem é coisa de família aí na sua casa, hein De?

    Adorei o relato, fiquei toda arrepeiada aqui.

    Só queria mais detalhes dessa anestesia que ela tomou, já que ela conseguiu sentir tudo com menos dor e pôde parir no banquinho. (#curiosa)

    Bjos

    1. Olá Ilana,
      Sou a irmã da Deni.
      A anestesia foi dada quando eu estava de 7 pra 8 cm de dilatação. Tive que ir para um centro cirúrgico pra levar a anestesia e depois voltei pra sala de parto. Foi uma anestesia peridural dada na região da coluna. A dor passou quase que instantaneamente, mas o trabalho de parto continuou. Acho que uns 20 minutos depois o Marcelo nasceu. Ou foram 30 minutos? rsrsrrs… não lembro, sei que foi bem rápido.

      1. Ah, e meu médico pediu pra que fosse dada uma dose fraca. O que possibilitou que eu sentasse no banquinho, sem limitar a força das minhas pernas e meus movimentos 🙂

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