Eu não pedi pra nascer
Reflexões

Eu não pedi pra nascer

“Mamãe, você pediu pra gente nascer, a gente já nasceu, e agora a gente está aqui”. Bradou a pequena Marina, mãos na cintura, do alto dos seus 3 anos. A frase foi proclamada três anos atrás, em um dia que minha irmã mais velha estava super estava super estressada, noites sem dormir, a Marina de 3 anos tinha que ir pra escola, a Natália de 9 meses precisava dormir precisava dormir mas resistia, e a mãe querendo 15 minutos sozinha!* A Marina provavelmente devia estar matutando “o que raios a gente fez para a mamãe estar tão braba?”. Decerto pensou, pensou, pensou e concluiu que a mãe estava estressada por ter que lidar com as filhas, a casa, tudo ao mesmo tempo. “Ora bolas, mas quem pediu para a gente nascer foi ela!”- ela deve ter pensado. E foi lá avisar a mamãe que ela que era a culpada daquilo tudo!

Não é demais essa história? E quanta verdade saindo da cabeça uma pequena de apenas 3 anos? Na época que isso aconteceu eu ainda não era mãe e já achei a frase dela o máximo. Hoje, com um pequeno engatinhante agarrado às minhas pernas, essa frase faz ainda mais sentido. Quer dizer: a gente deseja esse filho, espera com tanta ansiedade, às vezes por anos, prepara um quarto lindo, um enxoval impecável, faz ensaios fotográficos belíssimos, deixa tudo pronto para a sua chegada. E quando finalmente esse bebezinho amado chega, não estamos preparados para suprir o que ele realmente necessita: alimento, cuidado, carinho.

E então esse bebezinho que acabou de chegar ao mundo pede colo, pede alimento, pede proteção. Como? Chorando. E qual a única (ou talvez a principal) forma que ele conhece para suprir essas necessidades? O peito. E nem sempre estamos preparados para nos entregar de tal forma que essas necessidades básicas sejam supridas. Porque isso requer entrega, disposição, disponibilidade. E poucos pais se dão conta de que a vida que tinham antes não existe mais. Não, ela não fica em standby esperando o momento de ser retomada. Ela não existe mais.

O corpo da mulher agora muda de função, e a prioridade é amamentar o filho. A vida conjugal muda de foco (nem melhor, nem pior, somente outro foco). O padrão de sono não tem mais padrão. A forma física agora é outra (nem mais bonita, nem mais feia, somente outra). E tudo isso faz parte do pacote. Tentar mudá-lo só vai gerar frustração e sofrimento.

Ao tentar mudar essa natureza, um dos lados vai sair penalizado. E normalmente é o lado mais fraco: o do bebê. Ao não se entregar à amamentação, é ele quem vai perder todos os benefícios do leite materno e da sucção ao seio da mãe. Ao não admitir as acordadas noturnas, é ele quem vai receber uma dose cavalar de alimento para que durma a noite inteira. Ao recusar o colo em livre demanda, é ele que será deixado chorando sem consolo. Ao não respeitar sua natureza, é ele que vai receber remédios para supostas cólicas, refluxos, quebrantes, manhas.

Aposto que se houvesse uma forma de mostrar para homens e mulheres, o trabalhão que dá ter filhos, de uma forma fidedigna, a maioria desistiria de ter herdeiros antes mesmo de encontrar um par. Criar um filho dá trabalho. Dá muito trabalho. Dá trabalho pra caramba. Não é brincar de boneca. É colocar uma nova pessoa ao mundo, que tem necessidades e uma personalidade próprias. Tentar fazer com que essa pessoinha corresponda a todas as expectativas dos adultos, contra a sua natureza, só vai trazer sofrimento.

Então, ter um filho dá trabalho? É difícil? Sim, muito. Mas a partir do momento que a mulher, a família se entrega de verdade a esse novo papel, o difícil passa a ser maravilhoso, o trabalhoso passa a ser recompensador. Essa entrega começa por um primeiro passo: aceitação.

Aceitar que você não é mais a mesma, que essa é a natureza do recém-nascido, que nunca mais estará sozinha, que esse é o seu novo corpo, que essa é a nova configuração da sua família, que essa é a sua nova vida. Aceitar, conhecer, aprender, compreender.

E então, deleitar-se com essa nossa vida.

****

Você pode estar achando que faz só 11 meses que me tornei mãe, não tenho autoridade para dar conselhos desse tipo. Mas veja bem, o que eu estou dizendo é tão óbvio que poderia ter saído da cabeça de uma menina de três anos!

*Trecho editado, pois minha irmã explicou os motivos para tanto estresse…

 

 

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Comentários

8 thoughts on “Eu não pedi pra nascer”

  1. Lembro como se fosse hoje e sempre repito esse caso que aconteceu comigo.
    Estava na casa de uma ex e o irmão mais novo dela discutindo com o pai sobre a poluição sonora que saía do quarto dele. O moleque se vira e diz:
    – Você não me pôs no mundo? Agora aguenta!

    Aquilo soou tão cruel. Mas era verdade. Parte do adulto de amanhã é responsabilidade (não culpa) dos pais. Há de sempre buscar estar presentes.

    beijos
    http://www.emnomedospaisdemultiplos.blogspot.com

  2. Perfeito!
    Hoje, do akto dos meus 9 meses de gurizinho, se alguem me pedisse um uma dica de maternagem, diria eu simplesmente: jogue as expectativas fora, aceite a realidade, o momento presente, confie no seu corpo e se entregue. Passa rapido e dah saudade.
    Beijeans, bonita!

    P.S.: agradecimento publico: gracas a vc e seu post sobre amamentação, me emponderei, conheci o GVA e me apaixonei e participo tanto que… virei moderadora do GVA! Gratidao, De!

  3. De. querida… Carambolas (blog lindo de familia que não dá para soltar um palavrão!! rs) QUE texto!!!
    Li de madrugada pelo celular.. e a vontade foi postar direto no face para muito gente lê.. e vê que não é tão simples assim.. que não é tão sem importância assim, só fazer e vai lá e pronto!
    Um tempo atras, escrevi sobre isso (lembrando da musica do palavra Cantada: criança não trabalha, criança dá trabalho)… pq dá trabalho sim, mas não é o fim do mundo. Não houver comprometimento, cuidado, compromisso.
    A fase mais punk passa tão rapido, que o minimo de esforço que devemos fazer acaba sendo tão pequeno, né?
    Adorei o post.. e vou super indicar!!!
    Bj grande!!!

    1. Martha, é bem isso né: bebê não precisam de luxo, eles precisam de algo que é grátis – carinho. Porque será que é tão difícil compreender?
      Beijos

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