Como é, na prática, largar o emprego para ficar com a cria?
6º mês Ben Reflexões

Como é, na prática, largar o emprego para ficar com a cria?

Passei muitos anos lendo blogs maternos, e muitas vezes me deparei com casos de mães blogueiras que fizeram alguma grande mudança em suas vidas profissionais para poder dedicar mais tempo aos filhos. Meu pensamento, até bem pouco tempo atrás era: “quem pode, pode”.

“Ah, ela pode fazer isso”; “Ah, o marido dela deve ter um ótimo salário”; “Ah, ela tem um blog profissional já”.

Infinitos “Ah”.

Até que eu própria senti nas costas o peso da vida profissional X vida de mãe. E tomei a decisão que contei para o Ben semana passada.

E durante todo o mês em que cumpri aviso prévio fiquei ensaiando como começaria o post para contar aqui da minha decisão. Sabe por quê? Porque muitas meninas que me leem estão passando pelo mesmo que eu. Se viram nos meus relatos, e muitas  já voltaram a trabalhar ou estão prestes a. Fiquei pensando uma forma de dizer tudo o que queria dizer sem deixar uma pulga atrás da orelha de vocês (culpa, remorso, algo do tipo).

Então achei melhor detalhar aqui o que me levou a essa decisão, e como tem sido na prática encarar a nova vida. Então, senta que lá vem a história:

Como eu contei para o Ben na semana passada, ir trabalhar e deixá-lo na escolinha começou a fazer cada dia menos sentido pra mim.

No primeiro mês, eu tinha direito a 1 hora por dia para amamentar, que podiam ser divididos em duas saídas de 30 minutos. Optei por sair 1h mais cedo, e era o que eu fazia oficialmente. Mas extra-oficialmente, eu dava algumas escapadas de manhã e de tarde para amamentar, disfarçadamente. Saía correndo, dava de mamar apressando o Ben e voltava correndo. Ao meio dia tínhamos todo o tempo do mundo.

E todos os dias eu fazia esse caminho (que na pressa dava 6 minutos ida, e 6 volta), eu ficava pensando e repensando o por quê de tudo aquilo. Pra quê estava privando o meu filho da minha presença? Pra quê obedecer a um relógio ponto que não me respeita como mãe e não respeita meu filho como indivíduo? A frase “tão novinho, mas eles se acostumam, né?” fazendo cada vez menos sentido? Pra que forçar meu filho a se adaptar a um sistema que não dá a mínima para ele? Por que tanta falta de acolhimento?

Acolhimento. Era isso que estava faltando. Eu me sentia sozinha, e não sentia minha empresa fazendo o mínimo esforço para me reter.

Agora, preciso voltar algumas semanas no tempo para contar uma coisa: algumas semanas antes de voltar a trabalhar, fui contatada por uma ex-cliente de São Paulo sobre minha disponibilidade para fazer um trabalho freelancer para ela. Eu expliquei que estava na reta final da licença, tentamos marcar algumas calls por skype e nunca dava certo, até que ela chegou à conclusão de que seria uma carga muito grande pra mim a volta ao trabalho, os cuidados com o Ben, e desistiu de me contratar. Logo em seguida, aconteceu tudo aquilo da minha volta ao trabalho surpresa. Eu voltei ao trabalho, mas com essa história entalada na garganta. Escrevi pra ela que estava decepcionada com minha empresa, e que se ela tivesse interesse, eu estava disposta a sair de lá. Passadas algumas semanas, ela me perguntou se eu ainda estava disposta, e  disse que poderia me indicar para alguns amigos.

Bom, voltando então à ordem cronológica da coisa. Um dia, nessas idas e vindas para amamentar, eu comecei a fazer as contas. Coloquei ‘mentalmente no papel’ todos os nossos gastos fixos (me julguem, nunca tinha feito isso). Cheguei à conclusão de que felizmente não temos grandes dívidas, e que nossos gastos básicos podiam ser supridos com a receita do Queridíssimo. E que manter toda aquela estrutura para proporcionar o bem-estar para o Ben estava saindo quase metade do meu salário, se não mais (mensalidade, gasolina, estacionamento…).

Naquele dia, cheguei em casa e abri o jogo e o coração. Conversamos muito, apresentei a ele minhas contas, minhas dúvidas e meus dramas. E ele concordou com tudo o que eu falei. Já era contra a permanência do Ben na escolinha por tantas horas, então pra ele foi perfeito eu ter chegado a essas conclusões. Começamos a olhar o lado do Ben nisso tudo e choramos de perceber o quão injusto é o sistema com os bebezinhos. Então decidimos juntos que o melhor para nossa família era que eu saísse daquele emprego e passasse a fazer frilas para ajudar nas contas da casa.

Não foi uma decisão fácil. Levei 10 dias para realmente comunicá-la a minha chefe. Tive muitas recaídas, amarelei inúmeras vezes. Mas realmente bater o ponto e correr contra o tempo para poder amamentar estava me tirando do sério.

Um dia eu estava nessa função, e na saída notei um colega meu de trabalho lá fora, fumando e falando no celular. Corri, dei de mamar, apressei o Ben, voltei. E o colega seguia feliz e contente fumando e falando no celular. Eu pensei: “poxa, o fumante pode sair quantas vezes quiser e eu, para amamentar meu filho, preciso apresentar um atestado médico?? Cadê a coerência?”.

E assim foi. Exatamente um mês após a minha volta ao trabalho, no dia 17 de junho pedi demissão. Minha chefe, que estava grávida, entendeu o meu lado e só perguntou se eu tinha pensado bem no assunto. E me informou de que eu everia cumprir aviso-prévio.

No dia seguinte ao meu pedido de demissão, o universo começou a conspirar. Aquela minha ex-cliente me pediu uma proposta de trabalho pois estava insatisfeita com a pessoa que prestava serviço para ela. E na mesma semana passei outras três propostas!

No fim, fechei somente uma dessas quatro, mas cada uma delas foi importante para me mostrar que era possível sim largar meu emprego e continuar trabalhando. Felizmente minha profissão permite que eu possa pegar trabalhos remotos e trabalhar em casa. Não são todas as profissões que permitem essa flexibilidade.

Antes mesmo de sair do meu emprego, eu já estava trabalhando nesse projeto da minha ex- e agora atual – cliente!

Mas não vou dizer que foi fácil todo esse processo. Durante todo o mês de aviso-prévio eu precisava me lembrar todos os dias o motivo por quê eu estava saindo de lá. Eu gostava de lá, as pessoas gostavam de mim. E veja bem, eu não tenho problema nenhum de me afastar do Ben. Sabendo que está bem cuidado, meu coração fica tranquilo. O problema era deixá-lo longe da gente por 11 horas seguidas – é todo o tempo que ele fica acordado! Não veria problema se fosse um emprego de até 6 horas. Aliás, seria perfeito trabalhar seis horas, mas aqui na cidade os empregos de seis horas não compensam.

Esse meu novo trabalho me exige entre 2 e 3 horas de trabalho efetivo por dia. Eu intercalo minutos de trabalho com os cuidados com o Ben.

É fácil? Vocês devem estar se perguntando.

Não. Não é, eu respondo.

Hoje faz uma semana que estamos juntos fulltime. E a casa está um caos. A prioridade no momento é entregar o que prometi no trabalho, e cuidar dele. Muitas vezes eu preciso me concentrar para entregar um relatório e ele quer atenção exclusiva. Já terminei relatório com uma mão só, enquanto ele mamava. Já fiz parte do trabalho pelo celular enquanto ele mamava. Já esqueci de dar a comidinha na hora certa, e de trocar a fralda também. Sei que aos poucos vamos pegando o ritmo um do outro, e as coisas vão dando certo!

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Comentários

15 thoughts on “Como é, na prática, largar o emprego para ficar com a cria?”

  1. Eu te entendo! Tudo, desde a angústia do período antes da volta ao trabalho até a decisão de largar o emprego e as dificuldades de tentar dar conta de tudo (freelancer, casa, baby, enfim). Por isso, mando um abraço enorme e desejo muita disposição, pois motivação eu sei que não vai faltar 🙂

    Beijos!

  2. Nunca é fácil, né De?! Mas aos poucos vocês dois, vocês três, se entrosam e azeitam uma rotina própria. Que você encontre muito mais do que paz e felicidade com sua decisão, que você possa se encontrar como mulher e mãe, e todos os desdobramentos dessas duas coisas :-)!
    Beijo

  3. Torço muito pra dê certo pra vocês! Como contei no blog, passei por uma crise sobre esse assunto, que eu espero ter se resolvido. Logo eu volto ao trabalho e vou sentir na pele como é. Claro que várias coisas me passaram pela cabeça, até trabalhar em casa, mas se com o André eu mal dou conta de mim e dele, e a casa fica toda zoneada, no meu caso acho que seria uma fonte de estresse (ainda mais sabendo que o André é o que chamam de bebê high need, pro meu desespero!). Mas sei que pra muitas funciona, e estou torcendo por vocês! O universo já está conspirando, vai dar tudo certo 🙂 Beijos!

  4. Depois me conta sobre os progressos em manter a casa e a vida em ordem! Aqui tá difícil, bem difícil… a partir de amanhã tem nova rotina, André começa na escolinha, mas eu só volto a trabalhar mesmo na metade de agosto. Vamos ver como vai ser… O Cinematerna não sei se a gente consegue (confesso que morrodemedo do André aprontar berreiro), mas podemos marcar outra coisa! Tenho planos de ir ver O Renascimento do Parto, mas esse vou ter que dar um jeito de ir sem o André… Beijos!

    1. Olha, hoje tivemos um bom dia, Ben sonecou 2 lindas horas e consegui trabalhar e colocar as roupas em dia (por na maquina, estender, recolher). Quando o bicho pega apelo pro sling. Mas ainda não consegui rotina nenhuma nesse sentido! A prioridade segue sendo cuidar do Ben e entregar as coisas do trabalho. Marido é um belo dono de casa!
      Quero ver o Renascimento do Parto também! Parece que vai rolar no Cinematerna, tomara!
      Beijos e boa sorte!

  5. Denise, que bom que tá tudo dando certo. Fácil nunca é, né.
    Isso dos fumantes eu tb me revolto. Perguntei no RH e me disseram que eu teria que bater ponto toda vez que fosse tirar leite (moro na Alemanha). Resolvi falar isso com o meu chefe e argumentei exatamente isso dos fumantes. Meu chefe entendeu e me deu carta branca, afinal ele se deu conta que ou era isso ou eu iria ficar mais tempo de licenca.
    Mas a verdade é que eu nao posso reclamar. A licenca aqui, apesar da remuneracao ser parcial, é de até 14 meses, pai e mae podem dividir (é o que queremos fazer depois dos 6 meses) e ainda dá pra diminuir a carga horária (e salário junto) ou mesmo fazer uma pausa até os 3 anos da crianca mantendo todas as garantias de emprego.
    Boa sorte!

    1. Nossa, nada como um chefe coerente e uma política nacional de apoio às mães! Que sonho tudo isso de licencas e possibilidades! Não da pra reclamar mesmo!
      Beijos

  6. De., deve ter sido muito difícil e eu te entendo… e te admiro. Muito.
    Admiro… invejo… admiro de novo…

    Eu gostaria muito de ter um emprego que me permitisse largar o ponto da empresa e trabalhar de casa. Gostaria muito de não ter que, obrigatoriamente, trabalhar.

    Boa sorte, meus pensamentos positivos para vcs três!

    Beijos grandes!

    1. Obrigada. Fácil não é mesmo, mas tem valido a pena.
      Felizmente a profissão (apesar de ultra mal valorizada) permite essa flexibilidade!
      Beijos

  7. Dê,
    Eu tenho um emprego de seis horas, com seis meses de licença. É o céu no Brasil né? Mesmo assim eu me preocupo com essa fase.
    Fora esse, ainda tenho outra profissão, que exerço três vezes por semana.
    Sonho de vida? Ganhar uma bolada na mega-sena e exercer só essa segunda atividade, e só quando eu quiser.
    Se não for possível, vou ter que decidir o que fazer na hora certa, e vc será inspiração, uma vez mais. 🙂

    1. Um emprego de 6 horas BEM PAGAS resolveria meus problemas hehehe. Não posso falar porque não sei mais detalhes, mas eu namoraria ficar só com esse emprego de 3x por semana hein?!?? Biscoitinho agradeceria!
      Só o tempo dirá!
      Beijos

  8. Tenho certeza de que não é nada fácil, e por isso mesmo a admiração é grande! Dar certo, sei que vai dar, porque o Ben vai ser infinitamente beneficiado. E torço muito pra ser um processo tranquilo, sem sustos e com muitas realizações pra você!
    Acompanhando com grande interesse essa nova fase de vocês. 🙂

    1. Oi Marina, obrigada!
      Como sempre foi uma curiosidade minha saber como faziam essas mães que ficavam em casa com os filhos, vou fazer questão de contar cada detalhe por aqui. Vem comigo! heheh…
      Beijos!

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