O luto do não-parto
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O luto do não-parto

Não tem um dia desde que o Ben nasceu que eu não imagine como teria sido se tivéssemos conseguido um parto normal.

Nos primeiros dias eu chorei, e descarreguei toda a minha frustração naquela cicatriz que agora eu passo a carregar na barriga. Eu sentia as dores e falava comigo mesma “eu odeio tudo isso”. Eu chorava dizendo que estava tudo errado, e o Queridíssimo me consolava, dizendo que não, que tinha dado tudo certo, olha nosso pequeno ali, lindo e saudável.

Não é fácil encarar todo o processo de nascimento do Ben e encontrar todos os erros que levaram àquela cirurgia.

Não é fácil admitir que errei. Dói.

Eu tenho um hábito desde quando era pequena, que é de me contar histórias boas para embalar no sono. Durante os primeiros três meses após o nascimento do Ben, não teve uma noite em que não me “contei” a história do nascimento do Ben como eu gostaria que tivesse sido. Imaginava que naquela nova medição de colo eu estivesse com 7 em vez de 4 centímetros de dilatação, e que a equipe iria me esperar dessa vez. E então me imaginava chegando à dilatação total e me encaminhando para a sala de parto normal. Mas na maioria das vezes eu não conseguia imaginar o momento do expulsivo e o Ben vindo ao meu colo. Eu sempre dormia antes.

Acho que isso mudou no dia em que nasceu o filho dos nossos amigos. Eles foram para o mesmo hospital com 41 semanas e internaram para fazer indução com condições nem um pouco favoráveis: colo grosso, fechado (as mesmas condições que eu estava quando entrei lá). Ela passou pelos mesmos procedimentos que eu (introdução de comprimido para favorecer o colo, e depois ocitocina), com a diferença que logo no segundo comprimido começou a sentir contrações. Em pouco tempo chegou à dilatação total e teve seu bebê de parto normal 24 horas depois de se internar.

Nossa, eu passei aquelas horas apreensiva, com muito medo de eles terem o mesmo desfecho que eu. Até que recebi a ligação com a notícia de que tinham conseguido. Eu fiquei tão feliz, parecia que era eu quem tinha conseguido! Olhei para o Queridíssimo e falei: “Nossa, estou tão feliz que deu certo dessa vez!” Ele me olhou sério e respondeu: “Mas na nossa vez também deu certo.”. E eu fui direta: “Tu nunca vais entender”.

E é isso mesmo, acho que ninguém nunca vai entender o tamanho do meu luto por não ter conseguido parir depois de tudo o que passei para conquistar meu parto.

Mas voltando ao parto dos meus amigos, o bebê deles nasceu com 0,5 cm a menos e 1kg a menos que o Ben. Eu sei que do ponto de vista do parto normal, tamanho não é documento. Mas o sucesso deles serviu para me mostrar que talvez, mesmo chegando à dilatação eu também não tivesse conseguido o meu parto, pois o Ben era realmente grande. Será? Nunca vou saber.

Por ora, acho que levei seis meses para elaborar esse sentimento e elencar todos os erros cometidos no caminho para o nascimento do Ben. E se eu tiver uma nova oportunidade, terei em mente que:

1. O hospital realmente não precisa de luxo, mas a maternidade particular não teria me internado somente por causa da bolsa rota alta.

2. Bolsa rota alta não é motivo para correr para o hospital. O melhor é ter alguém de confiança que possa avaliar o caso antes.

3. Uma doula é sim fundamental. O momento da bolsa rota era um sábado à noite e não queríamos importunar conhecidos com nossas dúvidas. Uma doula poderia ter-nos orientado sobre o melhor a se fazer.

4. Desconfio que eu mesma possa ter boicotado o parto, quando comecei a ficar com medo de ter a mesma dor que aquelas mulheres que gritavam tinham. Uma delas gritou muito e logo a seguir o bebê nasceu. No meio da minha dor, fiquei com medo de chegar lá. Um ambiente mais amigável e uma equipe mais amorosa poderiam ter feito a diferença aí.

5. Ter um plano de parto é importante. E não adianta ter um plano de parto “em mente”. Deve ser levado impresso e entregue à equipe que for assistir o parto. Fez toda a diferença no caso dos meus amigos.

6. Uma equipe humanizada é sim cara para os meus padrões financeiros. Mas nada paga a frustração de não ter conseguido parir.

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Comentários

22 thoughts on “O luto do não-parto”

  1. ah, não fique assim…..
    eu entendo que a frustração seja algo muito difícil de ser digerida e engolida, te entendo.
    a única coisa que posso dizer, é o que o seu marido diz: deu certo, sim, deu certo. Mas te entendo quando vc pensa que não deu.
    No meu caso, a amamentação failed e eu sou frustrada com isso até hoje (não sirvo de exemplo em superação de traumas, repare). Sei que tem dias que não penso nisso, tem dias que me perdoo, tem dias que não ligo por não ter insistido, por não ter sido mais inteligente, por não ter sido mais dedicada… mas tem dias que eu simplesmente não entendo aonde deu errado e como posso te um par de seios que não serviram para nada… acho, inclusive, que o desdém com a cicatriz da cesárea é o mesmo que tenho com os meus seios, pois hoje em dia tenho real pavor deles, tenho raiva, como se eles, grandes, pomposos, cheios de vida, tivessem me negado ajuda, sabe? Não deixo meu marido encostar neles, não uso um sutiã bonito para valorizá-los, a única coisa que sinto por eles é raiva.
    Como passa? Não sei.

    Te entendo. E espero, de coração, que vc supere a sua frustração, pq não é fácil viver com uma marca assim.

    Beijos!

    1. Sou dessas também… tem dias QUE…
      Mas olha, vou te falar o mesmo que ouvi/li por aqui: tá aí Laurinha linda esperta e carinhosa para te ajudar a superar essa frustração.
      E na próxima gravidez, me chama que vou te ajudar a amamentar desde o primeiro dia!!
      Beijos

  2. Oi Denise, posso te falar uma coisa, já falando: não se culpe, não sofra!
    O nascimento de um filho é um acontecimento único e muito forte na vida de uma mulher.
    Eu acho muito legal você analisar o que pode ter acontecido, para que num próximo você possa parir do jeito que deseja.
    Doula ajuda muito mesmo. Minha bolsa rompeu de sábado para domingo, mas o Tomás só foi nascer na segunda-feira às 20h. Nós só fomos para o hospital duas horas antes dele nascer. Durante todo esse tempo eu e Tom fomos monitorados. Minha doula me acalmou, me amparou, me passou muita segurança; acho que se não tivesse ela, teríamos ido mais cedo para o hospital e talvez o desfecho teria sido outro.
    Sobre o medo de gritar, eu também morria de medo e me envergonhava de antemão caso gritasse. E eu gritei, viu! Mas sabe que só quando eu me entreguei, e gritei toda vida o meu filho nasceu!
    Apesar de ter parido, eu demorei meses para digerir o nascimento do meu filho, eu demorei meses para me perdoar de algumas coisas.
    Você há de superar essa frustração, essa dor. Você já está no caminho para isso, acredite!
    Grande beijo

    1. Oi Gabi, obrigada pelas palavras! Espero que eu esteja mesmo no caminho para superar isso. Na verdade às vezes eu até acho que superei, mas volta e meia me dá uma recaída… Na próxima, a doula vai estar em primeiro lugar de qualquer lista de enxoval!
      Beijos

  3. Oi Denise! Eu voltei lá trás e li o post do seu parto, para entender melhor o seu “luto”. Não fique assim, nem sempre as coisas acontecem do jeito que planejamos, o importante é que o Ben tá aí lindo, experto e saudável. Meu parto foi normal, se vc quiser eu posso te contar sobre a minha experiência por email ou mensagem privada no face. Ainda tenho dúvidas se terei um próximo bebê de parto normal.
    Bjos pra vcs!!!

    1. Oi Amanda, eu ia gostar de saber sim! Sei que muitas vezes o parto normal não sai como a gente imaginou. Mas acho que pra mim é não ter tido um, sabe? Me manda o teu relato quando puder?
      Beijos

  4. Querida, te entendo.
    Mais que isso, compartilho da sua frustração, que também é a minha. E morro de raiva toda vez que alguém diz que foi ótimo, que deu tudo certo, que o importante é todo mundo estar bem e com saúde.
    Honestamente, acho que a gente deve se permitir sentir isso e viver esse luto, pelo tempo que for necessário. Aqui já está bem abrandado, mas sinto uma pontinha em vários momentos (quando vejo um video bacana de parto humanizado, por exemplo). Não fico mais com raiva da cesárea – senti muuuuuita raiva, mas sinto muita pena por não ter podido parir de novo, principalmente porque acho que não terei mais filhos, então não terei outra chance.
    Temos que aprender a conviver com isso e pronto.
    (e tô com a sensação que mais te atrapalhei que ajudei, né?)
    Beijo

    1. Oi Ilana, obrigada! Se eu estivesse no teu lugar, talvez eu fosse um pouco (um pouquinho só) mais conformada com o não-parto. Mas quando acompanhei teu drama antes e ‘parir’, e li todos os OITO posts sobre o tema, não imaginei que eu fosse ter a mesma frustração depois…
      Beijos
      (ah, e ajuda só de comentar!!)

  5. Muito triste, Denise 🙁 Posso imaginar o tamanho da sua frustração! Eu tb não queria aceitar todos os gastos com o parto, porque é algo tão fisiológico que parece absurdo pagar, mas nessa hora felizmente não fui tão racional e esqueci o bolso, e valeu cada centavo! Torço muito para que no próximo você possa ter um parto lindo e parir em dobro. Quanto ao tamanho do bebê, não pense nisso, isso é duvidar da sua capacidade de parir… Você consegue! Por algum motivo que só cabe a você descobrir, você precisou dessa experiência, mas saiba que seu corpo é capaz! Desejo que você consiga compreender essa experiência, e que o próximo compense o que faltou nesse. Beijão!

    1. Não se sinta culpada com o que vou dizer: mas teu parto foi um belo de um tapa na minha cara! Sim, pois vivenciamos o mesmo drama no meio da gravidez (e foi ele que nos colocou uma a outra no mesmo caminho, né?), mas tu fizestes as escolhas totalmente opostas às minhas. E conseguiu!
      Olha só quanta coisa eu poderia ter feito diferente!!
      Beijos

      1. Sim, e você foi parte da minha escolha! A sua experiência me ajudou também, muito! Eu acho que se tivesse ido pra maternidade, tudo teria sido incrivelmente diferente, e a minha experiência não teria sido tão boa. Eu teria pedido intervenções, como analgesia, se não uma cesárea. Mesmo que não pedisse, acho que com plantonistas ganharia no mínimo episio e vácuo ou fórceps. Nem todos os profissionais aguentariam esperar meu expulsivo de 2 horas, sendo meia hora (acho) só pra parir um pedaço da bolsa antes dela romper naturalmente. Ficarei muito feliz se a minha experiência te ajudar de alguma forma no futuro, mesmo que inicialmente tenha sido um tapa 🙁 Conte comigo pra trocar ideias, se quiser! Suas experiências com o Ben me ajudam um bocado também, obrigada por isso! Beijão!

  6. Oi Denise!
    Sempre passo por aqui, mas nunca comentei.
    Dessa vez fui obrigada a dividir contigo essa angustia: também vivo o luto do não-parto.
    Só quem já passou por isso sabe a dor que é de não ter conseguido, a dor que é viver com essa cicatriz na barriga, a dor que é fracassar neste sonho do parto natural.
    Ganhei meu bebê no Ilha, agora em abril. 9 cm de diliatação, 10 horas de trabalho de parto, o bebê alto (não encaixado) e começo a me sentir mal. Minha obstetra vem com aquele aparelhinho medir os batimentos cardíacos do bebê e diagnostica “taquicardia fetal”. Tentamos manobras durante 1 hora para reverter o quadro e nada. Fui pra faca.
    E não tem um dia, desde que o Pedro nasceu, em que eu não pense em como seria se eu tivesse conseguido. E passo tentando encontrar o momento em que errei: se foi quando fiquei sentada de barriga pra cima, se eu deveria ter batido o pé e ter tentado mais… Já teve horas em que achei que a médica se precipitou, mas já discuti a situação com outros médicos e todos me confirmaram que a conduta dela foi adequada diante do quadro. Pedro também nasceu grande, com 51,5cm e 3,910 kg – mas eu também sei que bebê grande não é motivo de não encaixe.
    E é claro que enxergo que deu tudo certo, que meu bebê chegou bem e por isso sou muito feliz e agradecida.
    Mas que a minha expectativa era diferente, isso era…

    Mas teremos outras oportunidades 😉

    Beijo pra ti e pro Ben! =D

    1. Oi Michele, obrigada por comentar, volte sempre!!
      Teu comentário me mostra algumas coisas: 1. eu podia sim ter dilatado mais e mesmo assim não conseguido; e 2. se tivesse ido pra Ilha o desfecho poderia ter sido o mesmo.
      Na verdade, estou tranquila quanto ao hospital, pois lá me esperaram por mais de 30 horas, e numa particular teriam me pressionado antes. Isso pelo menos me conforta.
      E sim, teremos outra oportunidade!!
      Beijos

  7. Denise, acho que toda mãe vai sempre carregar alguma frustração… Alguma, não algumas! rs
    Eu, por exemplo, tive parto normal, mas fico frustrada porque teve que ser induzido e eu gostaria de ter entrado em trabalho de parto fora do hospital.
    Depois virão outras questões com relação ao bebê, pois no 1o filho a gente é muito inexperiente.
    A gestação e a maternidade geram muitas expectativas e na nossa imaginação vai ser sempre tudo de uma determinada forma! A gente tem que aprender que não consegue controlar absolutamente tudo, especialmente porque, apesar da gente demorar a perceber, um filho é um indivíduo independente de nós! Então aí está o exercício que temos que fazer, o da real aceitação. Beijos!

  8. ô menina, que posso dizer? O luto é necessário, e só chorando todas as tristezas é que podemos superar os maus momentos. Quem sabe um dia tudo isso vai passar, a cicatriz vai ficar (a da alma quase mais que a do corpo) mas só para lembrar o dia em que pariste o teu filhote. Porque sim, mesmo que tenha sido uma cirurgia, foste tu quem pariu.
    Estou tentando me preparar o máximo possível para um parto natural, mas um dos meus exercícios mais constantes é o mental, de pensar que vou tentar tudo, mas que se eu acabar numa cesárea, é porque essa será realmente necessária para trazer a minha bezerrinha aos meus braços.
    Acho realmente que nós sempre temos que ter os “planos B” na cabeça, exatamente para evitar as decepçoes. Vamos ver se dá certo tudo isso, o plano A, ou o B…
    Beijos enormes!

    1. É verdade Vaquinha, está sendo muito importante escrever sobre isso e receber os comentários carinhosos vindos daqui.
      É importante ter um plano B em mente. Eu não tinha, confiava demais na minha “informação”. Informe-se, mas cerque-se de pessoas de confiança para fazer dar certo.
      E como eu não tinha me preparado mesmo para ela, na hora do vamos ver eu sofri demais!
      Beijos

  9. Denise, estou aqui grávida, pensando que eu nao estou nada preparada para um plano B. Morro de medo da cicatriz, do pós operatório, da cirurgia, de prejudicar a amamentacao, do meu filho nascer grog, e vários etcs. Meu medo de placenta era mais pela cesariana certa que pelos riscos à gravidez (olha que maluca!).
    Por um lado esse medo me faz ter forca pra priorizar um parto normal humanizado, mas por outro lado a impressao é que hoje eu entraria em depressao caso precise de uma cesariana. Ainda tenho uns meses de barriga e espero que até lá eu consiga entender melhor que nem tudo depende da minha vontade.
    Nao vou te dizer que deu tudo certo, porque sinceramente o parto tem um peso hoje tao grande pra mim que seria hipocresia. Espero estar equivocada, mas para mim só um bebe saudável nao é suficiente em se tratando de gravidez e parto.
    Acho muito digno você nao ignorar esse luto, como a Vaquinha falou lutos sao importantes (apesar que nossa sociedade moderna viver dizendo o contrário).
    Várias coisas deram certo pra ti, veja bem: ele nasceu no dia que quis (isso é privilégio no Brasil); nessas 30 horas você e ele foram inundados de hormônios benéficos; você e ele estao saudáveis; a amamentacao é exemplar (imagino que deve dar um orgulho danado saber que toda essa fofura e esperteza é obra exclusivamente tua).
    Bjs,
    Elisa

    1. Oi Elisa, tanta verdade no teu comentário, obrigada! Sim, tenho muito orgulho da amamentação exclusiva e isso virou questão de honra depois que perdi o meu parto.
      Também me conforta o fato de ele ter nascido no momento dele, e de pelo menos termos tentado até onde deu o parto normal.
      Quanto a você, acho importante ter essa convicção, pois tem gente que por muito pouco queria o parto normal e perdeu. Mas não ter cogitado essa possibilidade me fez sofrer muito mais o pós-operatório! E isso se traduz nas coisas práticas, como por exemplo não ter levado uma calcinha adequada para a maternidade…
      Então, o que sugiro é você ter em mente que nem tudo está sob o nosso controle!
      Beijos

  10. Tô há uns dias pensando se comento ou não esse post… Mas vou me aventurar, mesmo que talvez algumas pessoas não concordem com a minha opinião. Amiga, sei o quanto você queria o parto, mas vou dizer: seis meses é muito tempo. Chegou a hora de superar. Deni, o Queridíssimo Diego tem razão, deu tudo certo sim, o Bem tá aí, mais firme e forte impossível. Tens que aceitar que o nascimento do bebê é um MEIO, e não um fim. O objetivo não é o parto em si, e sim colocar no mundo uma criança com segurança pra mãe e filho.

    Claro que eu sou a favor do parto natural, concordo que os médicos se passam em empurrar cesáreas desnecessárias, tudo isso eu entendo e acho errado também. Talvez você pudesse ter feito algo diferente, que resultasse no parto? Talvez. Mas não foi isso que aconteceu. A vida é cheia de “SE’s”. No fim, só vale o que é real. Chegou a hora de aceitar amiga, sério. Fiquei preocupada quando vi que tu ainda pensa nisso. Lembra que eu te dizia pra se preparar psicologicamente pro CASO de não dar? Pois é. Porque poderia mesmo acontecer.

    Esse é um assunto que eu posso comentar. Eu vivi esse luto. Queria muito, não cogitava a hipótese da cesárea. Meu médico era cesarista, mas me deixou à vontade pra fazer com o plantonista, se quisesse. Cheguei na Santa Helena com contrações e fui super bem atendida pela plantonista, que me internou e iniciou a indução. Depois de algumas horas e uma evolução mínima da dilatação, eu mesma cheguei à conclusão que aquilo tudo não tinha nada de normal pros meus parâmetros, a dor era muito forte, estava exausta depois de mais de 24h na função. A médica ainda disse pra eu tentar mais um pouco, em momento algum me desestimulou, mas desisti. Fui chorando pro centro cirúrgico. Passei dias lamentando o fato, “diminuindo” a importância daquele momento. Meu marido ficava bravo comigo, assim como o teu. Depois que as dores da cirurgia passaram, e que vi que a Sofia crescia bem, e que tava tudo bem, eu me permiti aceitar que eu tinha dado o melhor de mim, e que eu podia superar.

    Mesmo assim, passei meses me justificando quando falava no assunto. Não porque eu achasse que tinha feito errado, mas porque sabia que as pessoas esperavam isso de mim. Existe um grupo que eu chamo de “Patrulha da Mãe Perfeita” que se acha no direito de ditar as regras da boa maternidade, e de julgar qualquer mulher que não cumpra alguma dessas regras (parto natural, amamentação até os dois anos, uso de sling, abrir mão da vida profissional etc), ou que comenta algum dos “pecados” (usar carrinho, dar bico, dar mamadeira, fazer cesárea, colocar na escolinha…). Eu tentei normal, amamentei, usei sling, mas também cometi todos aqueles pecados. E daí? Alguém tem o direito de me julgar? Marquei a cesárea do Caetano porque me preocupei primeiro com o bem-estar da Sofia. Alguém pode dizer que fui uma má mãe por isso? Eu não admito isso, e nenhuma mulher deve admitir! Sofrer com esses julgamentos é tão cruel quanto ter um médico que te empurre a cesárea goela abaixo. Ser mãe, educar, cuidar já é difícil o suficiente! (Não estou dizendo que tu se justifica por isso, eu sei o quanto isso era realmente importante pra ti. Só queria fazer o desabafo porque tenho certeza que não fui a única a sofrer por causa do julgamento de outras mulheres.)

    Hoje, apenas duas coisas me chateiam por não ter tido um PN: a cicatriz (quelóide medonho) e a curiosidade, saber que será uma experiência que deve ser mesmo incrível, e que eu não terei. Bom, mas subir o Himalaia, pular de pára-quedas, conhecer o Papa, ver os Beatles ao vivo, várias coisas são experiências incríveis que não teremos (chutei algumas coisas, claro, isso vai de cada um). Paciência. Em compensação, viveremos outras que só a maternidade dá: o primeiro passinho, o primeiro “mamãe”, os sorrisos, o “eu te amo, mamãe”, a primeira apresentação de Dia das mães… E aí, vale a pena carregar uma frustração dessas pro resto da vida por causa da forma que ele veio ao mundo? (Ou, numa linguagem mais grosseira que já me desculpo antecipadamente, por causa do buraco que o anjinho saiu?)

    Amiga, não gosto de dar conselhos, porque, pra mim, maternidade é, antes de tudo, instinto. Cada mãe sabe o que é melhor pra si, pro filho e pra família (escola, vó ou babá? Mamadeira ou copinho? Chupeta ou dedo? Cama compartilhada ou quarto separado? Remédio ou homeopatia? ). Não existe fórmula perfeita. Todas erraremos e acertaremos mil vezes, todos os dias. Mas um conselho eu vou te dar, porque a outra opção não vai te levar a lugar nenhum, a não ser um sofrimento desnecessário. Permita-se aceitar. Perdoe-se. Supere. Esqueça. E siga em frente, feliz e realizada por ter colocado no mundo aquela criaturinha mais fofa, saudável e linda que é o Ben. Acredite no teu marido: deu tudo certo, foi tudo bem. Não diminua nem um pouquinho o tamanho do milagre que tu fez, que é pôr uma criança no mundo com amor.

    (Desculpe se me passei, mas tu me conhece há mais de 12 anos, sabe que sou super sincera. Se fiquei meia hora escrevendo tudo isso, é porque gosto muito de ti e me preocupo com tua felicidade 🙂

    1. Bru, que bom receber teu comentário sincero. Eu realmente precisava ler cada palavra. E escrever esse post ajudou muito a exorcizar meu luto. Cada um tem sua história, e mesmo quem conseguiu parir ainda tem coisas a assimilar no seu parto. Talvez se eu tivesse parido também tivesse minhas coisas a assimilar. Por isso escrever esse post foi muito bom mesmo!
      Acho que um pouco do luto é isso que tu falasse, de não saber como é passar por essa experiência, que deve ser maravilhosa. Mas quem sabe no próximo, né?
      Também acompanho o grupo da patrulha da mãe perfeita, nem tudo lá eu concordo. Acho que cada uma sabe o que é melhor para o seu filho, cada uma tem seu contexto. Mas tem coisas que não abro mão, e vou sempre defender, como o direito do bebê de nascer quando estiver pronto e de ser amamentado.
      Minhas escolhas se baseiam no respeito ao Ben como um indivíduo, e não nas minhas necessidades em primeiro lugar.
      Mais uma vez, obrigada pelo comentário, e que bom que tu não focou só pensando na resposta e veio aqui escrever!
      Beijos

      1. Essa questão de o bebê escolher a hora de vir ao mundo é algo que talvez, se eu pudesse, mudaria no nascimento do Caetano. A idéia inicial era, sempre foi, entrar em trabalho de parto, mesmo que precisasse fazer uma cesárea(como tinha a Sofi, não poderia ficar um dia em trabalho de parto, por exemplo). Mas, se ele fosse rapidinho, iria encarar o parto. O problema é que eu estava mais preocupada ainda com a Sofi e a reação dela à chegada do irmão. Isso tirava o meu sono. Fora isso, eu não tinha com quem deixá-la: mãe e sogra morando longe, e minha irmã fazendo TCC, não tinha o que fazer! Comecei a entrar em pânico só em pensar em estourar a bolsa à noite, e ter que acordar a Sofia, levá-la a algum lugar indeteminado previamente… Ela tinha nem dois anos e não estava habituada a dormir fora. Eu pensava que ganhar um irmão que iria passar seis meses grudado no peito da mãe já seria difícil o suficiente. A angústia me tirava o sono. Até que decidimos, em conjunto, agendar a cesárea (algo que sempre fui super contra, a ponto de não entender). A decisão me tranquilizou, e fizemos uma força-tarefa pra revezar os cuidados com a Sofi naqueles dois dias (um dia com a sogra, outra metade com a cunhada, depois minha irmã… Mas cada um teve que se organizar previamente pra poder estar disponível). Deu tudo certo, a Sofi aceitou super bem o irmão, sem dramas. Mas como eu saberia?

        O Caetano, como tu sabe, é todo gripadinho, desde o primeiro mês (mesmo com aleitamento materno exclusivo, e muito antes da escolinha). Me pergunto se mais uns dias no “forninho” (ele nadceu com 39 semanas e 1 dia) não fariam diferença. Talvez sim, talvez não. Nunca saberei. Também não sei com quem deixaria a Sofi, mas talvez pudesse ter “puxado” mais a família, ou pego uma babá. na hora, tomei a decsão que achei mais acertada com as cartas que tinha pra jogar. Então, bola pra frente, né? Pensar nisso só vai me dar mais culpa, e culpa é uma palavra que rima com “mãe”, já teremos muita na vida, né não? Rsrsrsrs mas fica o relato pras futuras mães-de-dois!

  11. Olha erga as maos para o ceu que o se bebe esta bem tentaram tanto o normal em minha cunhada que o bebe nasceu morto. foi enterrado ontem tenho tres filhas todas de parto normaç mas da ultima quase maorri ela nasceu toda roxa. se fosse para escolher teria feito cesarea para nao ver ela sofrendo tadinha. viveu por DEus mesmo nao importa Pn ou Pc todas sao maea da mesma forma o que importa e a criança.

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